O Ladakh é um pequeno território indiano de cultura tibetana situado nos Himalaias, com condições bastante adversas à vida humana. Devido ao seu isolamento, o povo do Ladakh manteve durante séculos um modo de vida tradicional equilibrado, baseado numa relação sustentada com o território e na cultura budista tibetana. Nos anos 70, a abertura à modernização segundo os padrões ocidentais de desenvolvimento, provocou desequilíbrios consideráveis na estrutura social e na relação com o meio, com o aparecimento de todos os 'males' associados às civilizações ocidentais: a sobre-exploração dos recursos naturais, a contaminação do meio ambiente, a alienação cultural e perda de identidade, os conflitos sociais.
Helena Norberg-Hodge chegou ao Ladakh antes desta abertura e testemunhou a evolução, reconhecendo nela todo o processo de desequilíbrio provocado pelo modelo de desenvolvimento ocidental que é hoje um processo global. O exemplo do Ladakh, é no entanto interessante, devido à rapidez com que se desenvolveu este processo, tornando evidentes as falhas, e as relações causa-efeito, que a nível global se tornam difíceis de identificar. Com base na experiência escreveu o livro Ancient Futures - Learning from Ladakh, no qual se baseia este documentário, editado pelo ISEC - International Society for Ecology and Culture, também fundada pela autora.
Este documentário faz uma análise bastante clara de todas as implicações do nosso modo de vida, já que, embora se baseie num processo ocorrido numa cultura específica, não é difícil reconhece-lo na nossa cultura, e em praticamente todas as culturas. Não aponta soluções, mas fornece uma óptica que nos permite questionar e procurar alternativas mais equilibradas na nossa relação com o meio e com a sociedade em geral, seja dentro da nossa cultura, seja em relação a culturas diferentes. Infelizmente só está disponível no Youtube a primeira parte, que faz a descrição do modo de vida tradicional. A segunda parte, que mostra o processo de 'desenvolvimento' e analisa as suas consequências, não só a nível local, mas também a sua generalização a outras culturas, não está disponível.
Existe uma tradução em português, uma edição conjunta da Quercus, da Animar e da Sul. Para mais questões sobre esta edição, e por pura preguiça de averiguar mais, remeto possíveis questões para este bloguer, que tem responsabilidades na tradução do documentário.
A documentary on impact of western development models on a traditional balanced culture - Ladakh. Only the first part of it is available on youtube. For more information visit ISEC - International Society for Ecology and Culture site.


17 comments:
O grande conflito entre a vida em harmonia com o que nos rodeia (os conhecimentos ancestrais) e o progresso desorganizado.
Dizes muito bem: reconhecemos neste documentário um pouco do que nos tem acontecido nas últimas décadas.
Depois de ver estes três videos e sem ter visto a segunda parte, já fico sem palavras.
Impressionou-me a simplicidade e clareza com que eles põem o dedo na ferida como quando um jovem diz que " Está a haver progresso mas as pessoas já não são tão felizes como eram".
E finalmente, a origem de todos os males: o dinheiro. A conjuntura actual é bem a prova disso e os Ladakh comprovam-no. Ele não é preciso para nada a não ser para criar desequilíbrios e desigualdades.
Obrigada jardineira, por nos trazeres estes momentos de verdadeira humanidade.
Abraço
Este 'progresso' faz-me lembrar 'a garrafa de coca-cola' ;)
Sempre que o Homem vive no paraíso, acaba por ser expulso...
Mofina, eu corrigiria a tua frase para 'o homem acaba sempre por se expulsar a si próprio do paraíso'. Mas se calhar isso é inevitável, é como passar a infância e a adolescência.
Eu gostava de acreditar, também respondendo ao Paulo e à Crix, que um dia vamos ser capazes de encontrar a harmonia no progresso, num qualquer tipo de progresso que ainda não inventámos.
Mas para já estou a ver o caso mal parado :)
Boas, Jardineira!
Não é o regresso de um "filho pródigo", mas hoje senti saudades pela partilha das cores da terra ao ver as prímulas amarelas dos prados, de novo, em flor.
Ao sentar-me no computador, revisito velhas companhias, espreitando a Primavera de outros lugares. Dias-com-árvores permanece monumento. Uma lembrança terna.
Vejo que continuas a suave e assertiva "militância verde" na blogosfera. É bom termos quem nos lembre coisas importantes.
Gostei do comentário da Mofina. Sempre acutilante e incisivo.
Dos posts recentes, páro num que diz «Das cidades e dos homens», do início de Dezembro. Sem autor nomeado, presumo que tenhas sido tu a escrevê-lo. Bonito! Empatizo com o conteúdo, e confirmo que sempre senti e me provocou desconcerto essa ambiguidade das cidades.
Sei que tenho uma promessa pendente, que não sei se ainda poderei cumprir, do envio de bolbos de Bluebells hispânicos, que entretanto plantei conjuntamente com algumas orquídeas e narcisos selvagens, e que já brotaram. Deixei-me de jardinagens... Sou incuravelmente desajeitado demais, preguiçoso demais para tanta tarefa. Mas tenho ainda 5 latas velhas de tinta (viva a reutilização! e a falta de dinheiro! eh, eh! Tenho que reconhecer que a Crix tem alguma razão a respeito dele.), onde mantive vivas uma carqueja (para que me lembrasse de quando é a época de subir ao monte e colher alguma nas matas! já está quase, já está quase!), uma lavanda-alfazema (daquelas de jardim, cheirosinhas a que ninguém resiste. eh, eh!), uma hortência (a flor da minha infância que me recorda a casa da minha avó falecida), e um conjunto (tudo à mistura, mas organizado consoante a altura e o momento da floração) de narcisos de jardim e selvagens, orquídeas silvestres e, claro, os sininhos azuis, os bluebells cá da península.
Nesta época, e inspirado pela vida que brota no novo ciclo que recomeça, lembro-me sempre da Virginia Astley, e do "From Gardens Where We Feel Secure". Abro a gaveta e ouço-o uma vez mais, aguardando melhores dias de sol, que teima, teima, teima em deixar-se ver.
E, pronto, já matei saudades...
Desejo-te uma boa Primavera (os chineses são mais inteligentes que nós, que marcam o início do ano em tempo certo! eh, eh!) e um bom ano de colheitas!!!
Cumprimentos à Mofina, e aos restantes, da "família", que me aturaram (já merecem sete Céus só por isso!) durante o ano passado.
Beijo
Tudo de bom!
;D
[Pode parecer coincidência eu aparecer sempre em momento de criação de novo blogue meu, mas não é. É pura e descarada estratégia de marketing. Eh, eh!]
Olá Alexandre, é bom saber que estás bem.
Não te preocupes com as campaínhas azuis, eu não tenho tido tempo para dedicar ao meu jardim de casa.
Olá Alexandre, se a casa fosse minha, dava as boas vindas. De qualquer forma, gostei de saber de ti...
Agoniadas, sim, mas não só pelas revistas (qd a gente se esquece dum livro nosso!). Tanta insensatez, tanta superficialidade! Não fazer como a avestruz, ou seja, pelo menos mergulhar a cabeça nas flores e plantas (areia, não!).
Bjinho
Já tinhas feito referência ao "Little Tibet"? ou sou eu que sonho nas minhas deambulações? Os vídeos não carregam hoje, hei-de voltar. São tão poucas as gentes a pensar verde!
Bj
É possível que sim, este foi um documentário marcante para mim. Pelo menos já fiz referência ao trabalho da Helena Norberg-Hodge e à ISEC. Acho que vale mesmo a pena ver. Não o pus antes porque da primeira vez que o procurei ainda ninguém o tinha colocado. Tenho bastante pena que ninguém o tenha colocado todo, mas eles devem querer que as pessoas o comprem, naturalmente. A segunda parte, que falta aqui é ainda mais interessante, na medida em que mostra erros que nós continuamos a cometer nas nossas sociedades.
Bem amiga, o verde está na moda, é pena é que para a maioria das pessoas seja uma moda tão superficial e passageira como a das revistas :)
Consegui ver hoje! Ressalta-me: harmonia, diálogo, cooperação, respeito pela Natureza e os seus ciclos, despojamento do superficial, aproveitamento do fundamental.
Nada disso é antagónico com um progresso "sustentado". Mas e convencer "um mundo" assim, baseado unicamente no lucro, no poder oco?
Obg T. pela lição amiga.
Bjinhos
Talvez a única saída seja o mundo convencer-se a si próprio da vacuidade do poder baseado na riqueza material. Mas não foi sempre esse um dos grandes desafios do homem? (a propósito agora veio-me à lembrança uma recomendação do Paulo - O Anel dos Nibelungos! :) ) E agora é uma altura crucial...
O que é estranho, e inquietante, é ver estes povos de religião budista, que cultiva o desapego e a compreensão da interligação das coisas, cair na mesma armadilha que todos os outros. Embora se fale muito da Felicidade Interna Bruta do reino do Butão... até quando?
Jardineira, desculpa se não te respondi logo. Foi um lapso. A resposta já está lá.
beijos
Aprendo, serenamente...
abraços!
Oi Jardineira. Sempre estou por aqui, porém sem tempo pra comentar, quase sempre.
Assisti há muito tempo um documentário falando de Ladakh e me apaixonei justamente pelo fato de ser uma cultura intocável, completamente isolada e por isto mesmo mantedora da beleza original da sua cultura. É triste ver que o "desenvolvimento" chegou, mais uma vez, desordenado e devastador.
Bjs
Berenice
É Berenice, acho que estão a desaparecer todos os paraísos perdidos...
Eu também não perco um post do teu blog :) está junto com os meus preferidos no leitor de feeds... só que assim os comentários acabam por ser menos. Mas não o interesse!
Bjs
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