"Isto sabemos: a terra não pertence ao homem; o homem pertence à terra. Isto sabemos. Tudo está ligado, como o sangue que une uma família. Tudo está ligado. Tudo o que acontece à terra acontece aos filhos da terra. O homem não teceu a rede da vida, ele é só um dos seus fios.
Aquilo que ele fizer à rede da vida ele o faz a si próprio."
Aquilo que ele fizer à rede da vida ele o faz a si próprio."
Este é um dos mais belos trechos de um texto quase universalmente conhecido como tendo sido escrito por um chefe índio americano que viveu no século XIX, e ao qual a cidade de Seattle deve o seu nome. Citei-o num trabalho académico como sendo do Chefe Seattle e sei de outras pessoas que também o fizeram. Existe uma publicação da Comissão Nacional do Ambiente que publicou todo o texto. Tem sido publicado e republicado em muitas línguas.
E no entanto este texto foi escrito nos anos 70 por um professor universitário chamado Ted Perry para um filme de temática ambiental, inspirado numa outra carta, igualmente atribuída ao chefe índio, mas que da mesma forma não foi escrita por ele. Esta foi escrita por um colono chamado Dr. Henry A. Smith, que assistiu a um discurso realmente proclamado pelo Chefe Seattle, e que foi traduzido para o inglês por outra pessoa, sobre o qual o Dr Smith tirou algumas notas. Foi com base nestas notas que este discurso foi publicado 30 anos mais tarde num jornal (aqui). E foi neste discurso, escrito com base nas notas do Dr Smith, tiradas de uma tradução do discurso original, que Ted Perry se inspirou para escrever o belo texto que conhecemos, e que ele nunca teve intenção de transformar numa fraude.
A mentira começou quando os autores do filme omitiram a autoria do texto para tornar o filme mais real, e a partir daí quando todas as pessoas que o transcreveram e o traduziram, e que sabendo a sua origem a omitiram também. Na realidade o texto tem valor por si próprio, uma vez que é uma autêntica declaração de amor pela Terra e pela Natureza, valores que tinham muito em comum com a atitude dos nativos americanos. E isso torna justo o valor e o destaque que lhe têm dado.
No entanto não tem nada de profético como pareceria ter se tivesse sido escrito no século XIX. Foi escrito quando já havia, embora de uma forma pouco generalizada, a consciência de que as culturas 'modernas' e industrializadas, são na realidade destrutivas do meio que nos alberga - a Terra, ou Gaia, o elemento maior de que fazemos parte com todas as outras criaturas, e que não nos pertencerá mais do que a qualquer das outras com quem partilhamos esta casa.
Apesar disso, o texto reflecte muito do que era a atitude dos povos tradicionais que tão presunçosamente temos considerado não civilizados: a atitude de respeito pela Vida, pelas outras formas de vida, a noção da ligação subtil que há entre os seres vivos e a terra, e entre os seres vivos entre si. Uma atitude que vinha talvez da ligação à terra e aos ritmos da vida, que as civilizações industrializadas e urbanizadas perderam quase completamente.
Talvez a razão porque este texto se tornou tão famoso e tão querido seja a mesma porque tanta gente sente a necessidade de voltar ao contacto com a Terra e com a Natureza. É que apesar de toda a separação, continuamos dependentes e ligados à Natureza como sempre fomos. Uma noção que a própria ciência começa a compreender através da ecologia e das abordagens multidisciplinares e sistemáticas. É também uma noção que as pessoas sentem intuitivamente cada vez mais. A separação e a atitude predadora do homem sobre a natureza acabam por se voltar contra o próprio homem nas mais variadas formas, e por se tornar demasiado dolorosas para ele. A necessidade de voltar à Terra e à Natureza, ao simples e ao equilíbrio sente-se cada vez mais na procura das pessoas. Sente-se na própria procura espiritual.
E esta é uma grande razão de esperança, para uma civilização que se encontra numa encruzilhada.
Uma das traduções para português (brasileiro) do texto de Ted Perry está aqui.

4 comments:
este texto é faaaaaaaabulooooooso!!!
espanta-em, espanta-me que as antigas tradições nos tenham legado tudo isto, e ainda assim o homem teime em não ver, ouvir, sentir... Teima... teima no orgulho, na vaidade, na arrogância!resiste à Sabedoria!
Minha querida amiga, quem dera que muitos lessem este post com o coração... quem dera que percebessem que somos células deste grande corpo que é Terra e que a nossa saúde, equilíbrio e felicidade depende desta coisa simples que é respeitar Amar o nosso Corpo!
quem dera que estas palavras despertassem as consciências dorminhocas... mas esses, suspeito, não frequentam jardins!
beijos
tem um dia muito feliz!
Pois, mas é isso que faz a diversidade deste mundo, e acho que temos que a aceitar embora fosse necessário mais pessoas pensarem assim para bem da nossa maltratada Terra. Mas enquanto existirem pessoas com um entusiasmo contagiante como o teu, Sa.ra, tenho a certeza que a mensagem vai passando!
Tem um grande dia da Mulher!
Um beijinho muito especial,
Cláudia
Um dia da Mulher muito feliz!
beijos
:)
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